Como uma bola de gude

Como uma bola de gude

Posso dizer que você se arrependeu? Que está parada no batente da porta, olhando para baixo, juntando, esfregando as mãos uma na outra até ficarem vermelhas? Eu não saberia convencer com essa precisão, com a precisão de quem está certo em pensar que sabe tudo sobre todas as coisas.

Uma hora ou outra – disse, – eu te conto sobre uma pessoa muito grande que coube num lugar muito pequeno, dobrando membro após membro, numa elasticidade impressionante, e ela não estava frente a um grande público – apenas ao mais seleto e mais íntimo. Mas ninguém chorou – ninguém chorou porque ela manipulou a todos e eles ganharam dela aqueles olhos brilhantes só para que pudessem se fixar nela, se contraindo, contorcendo, desaparecendo.

Posso dizer que você se arrependeu? Porque você, eu sei, não vai dizer. Por orgulho, por timidez, por falta de oportunidade – que diferença faz? Eu não saberia convencer.

Você não é – como costuma pensar – algum tipo de Corleone. Tem preço, e costuma se achar barata demais. Como se algum dia fosse procurada pela polícia, e não fosse valer tanto. Mas é até satisfatório – valer duzentos reais pode significar que o preço é injusto, ou que o crime é insignificante.

Posso dizer que você se arrependeu?

TS


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